Agente · Análise de Research
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Natura é uma máquina de marca com margem bruta de classe mundial (66,36% no Q2/2026) presa a um turnaround de Avon ainda não provado: o motor operacional voltou (ROIC saltou para 10,09%), mas o retorno ao acionista segue destruído (ROE -47,14%). Tese de opcionalidade, não de convicção.
Modelo de negócio e como gera caixa
O modelo é venda direta via consultoras das marcas Natura e Avon — capital de giro leve, capex baixíssimo (R$ 22 mi no 2025T2 contra R$ 335 mi no 2022T4) e margem bruta estruturalmente alta porque a empresa captura o spread entre produção própria e o preço de catálogo. O problema nunca foi o produto: é que a base de receita encolheu de R$ 10,4 bi (2022T4) para R$ 4,2 bi (2025T2) com a saída de Avon Internacional, Aesop e The Body Shop. E daí? A Natura virou uma empresa menor, mais limpa e mais lucrativa na margem — mas só gera caixa de verdade quando parar de financiar a reestruturação de Avon na América Latina.
Qualidade dos retornos (ROE/ROIC vs. custo de capital)
Aqui mora a contradição da tese. O ROIC de 10,09% no Q2/2026 — vindo de 2,2% um ano antes — sugere que o capital operacional finalmente rende acima de um WACC brasileiro de ~14-15%? Ainda não, mas a trajetória virou. Já o ROE de -47,14% é um cemitério: prejuízos acumulados (impairment de Avon, R$ 6,7 bi de prejuízo no 2024T3) corroeram o patrimônio de R$ 28 bi (2023T3) para R$ 15 bi. E daí? O ROIC diz que o ativo operacional é bom; o ROE diz que o acionista ainda paga a conta dos pecados passados. Retorno de qualidade só quando o lucro líquido recorrente sustentar — o que mal começou.
Vantagens competitivas (moat) e durabilidade
O moat real é a marca Natura e a rede de relacionamento de milhões de consultoras — um ativo intangível que sustenta margem bruta de 66% mesmo com receita em queda, algo que nenhum varejista de cosmético consegue. A durabilidade é alta no core Natura e frágil em Avon, marca em declínio estrutural global. E daí? O moat existe, mas está concentrado em metade da empresa; a outra metade é um passivo de reputação que a gestão tenta consertar. Moat de marca não impede a receita de cair -15,9% (CAGR Q2/2026).
Tese estrutural de longo prazo
A tese é simples e perigosa: se a gestão concluir a simplificação (one Natura, integração Avon LatAm) e converter a margem bruta em margem líquida positiva sustentável — o primeiro trimestre lucrativo veio no 2025T2 com R$ 195 mi — o papel reprecifica do book para cima. Se não, é mais uma trajetória de promessa. E daí? Sem dar preço (não é minha lente), a tese estrutural é de RECUPERAÇÃO PARCIAL já em curso, mas com execução binária. Mantenho neutro: o mercado já não paga pelo sonho (P/VP 0,9x) nem pune como falência.
▼ Riscos
Turnaround de Avon não converte
ROE -47,14% mostra que o acionista ainda absorve prejuízo acumulado; se o lucro recorrente não se firmar, o capital continua sendo destruído.
Receita em contração estrutural
CAGR de -15,90% (Q2/2026) — o moat de marca não impediu a base de encolher pela metade desde 2022.
▲ Oportunidades
Inflexão de ROIC
Salto de 2,2% (2025T2) para 10,09% (Q2/2026) indica que o ativo operacional simplificado finalmente rende.
Primeiro lucro trimestral
R$ 195 mi no 2025T2 é a primeira evidência concreta de que a margem bruta vira fundo de tela.